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Como escrever um guia que o hóspede realmente lê

Um bom guia responde antes de perguntarem. A estrutura, o tom e a ordem que fazem o hóspede parar de mandar mensagem perguntando a senha do wi-fi.

Por Rodrigo Hernández

Cofundador da HostCompass. Desenha o produto com anfitriões da LatAm: menos WhatsApp à meia-noite, melhores avaliações de comunicação.

Como escrever um guia que o hóspede realmente lê

Em uma frase

Um guia para hóspedes funciona quando segue o percurso da viagem (chegar, se instalar, viver a casa, sair) em vez de listar categorias de objetos, porque ninguém procura "eletrodomésticos": a pessoa quer café às sete da manhã numa cozinha que nunca usou.

O erro de origem: organizar por coisas e não por momentos

Quase todos os guias que já vi começam igual, com um índice que parece o inventário do imóvel. Eletrodomésticos. Regras. Bairro. Contatos. É uma ordem que faz sentido para quem escreve, porque é assim que a gente percorre mentalmente o próprio apartamento, e nenhum sentido para quem lê.

O hóspede chega de noite, com mala, depois de um voo. Ele não tem uma dúvida abstrata sobre eletrodomésticos: precisa abrir a porta. No dia seguinte não vai consultar a seção de regras: quer saber se dá para colocar uma roupa na máquina antes de sair para a praia. O guia que funciona segue essa linha do tempo e nenhuma outra.

Organizar por momentos tem um efeito colateral útil: obriga você a admitir quanta coisa do seu guia ninguém precisa. Se uma seção não cabe em nenhum momento da viagem, provavelmente não cabe no guia.

Os quatro momentos, e o que vai em cada um

Antes de chegar. Endereço exato, como chegar do aeroporto ou da rodoviária, onde estacionar e a partir de que horas dá para entrar. Isso se envia na véspera, não se deixa guardado esperando que encontrem. É a única seção que trabalha fora de casa. O Booking.com pede o mesmo aos anfitriões dele: lembrar o horário de entrada e dar as indicações de como chegar e onde estacionar antes de o hóspede sair de casa.

Na chegada. O acesso, o wi-fi e a luz. Nada mais. É a seção que se lê com uma mão ocupada, e por isso precisa ser a mais curta de todas: uma senha que dá para copiar, um número de apartamento, um interruptor. Se você colocar aqui o manual do ar-condicionado, perdeu o leitor.

Durante a estadia. A casa por dentro e o bairro. Aqui cabem os eletrodomésticos, mas só os que não são óbvios. Ninguém precisa de instruções para abrir uma geladeira; muita gente precisa para um termostato com três modos e display em alemão.

Na saída. Horário, o que fazer com as chaves, o lixo e as roupas de cama. Deixar por escrito evita a conversa constrangedora do último dia, que é a que mais vezes termina numa avaliação morna.

Sala de um apartamento de temporada com a mesa posta ao lado da janela

Escreva como você fala, não como quem redige norma

Existe uma distância enorme entre "solicita-se manter o volume moderado a partir das 22h" e "depois das dez o vizinho já dormiu, então abaixa um pouco o som". Dizem a mesma coisa. Só uma soa como gente.

O tom importa mais do que parece porque o hóspede não consegue pedir nuance. Se uma frase admite duas leituras, ele vai escolher a que lhe convém ou vai mandar mensagem para confirmar, e evitar essa mensagem era exatamente o objetivo.

Três coisas ajudam mais do que qualquer outra:

  • Frases curtas. Uma ideia por frase. Se você precisa de uma vírgula para emendar duas instruções, provavelmente são duas frases.
  • Segunda pessoa. "Deixe as chaves na mesa" em vez de "as chaves deverão ser deixadas na mesa". A voz passiva soa a contrato.
  • O porquê, quando houver. "Não jogue papel no vaso, o encanamento é antigo" é cumprido. "Proibido jogar papel no vaso" é discutido.

Cinco frases que valem mais que cinco parágrafos

Há detalhes que o anfitrião acha óbvios e que nenhum hóspede consegue adivinhar. Vale escrever mesmo parecendo bobagem:

  • Qual das duas chaves abre o portão.
  • Que a água quente demora um minuto para chegar.
  • Que a cafeteira usa um formato específico de cápsula e tem três na gaveta.
  • Que o wi-fi da sala chega fraco no quarto dos fundos.
  • Que a campainha não funciona e é preciso ligar no celular.

Nenhuma das cinco aparece num modelo genérico. Todas vêm de ter recebido a mesma mensagem duas vezes.

Coloque uma foto onde uma frase não basta

A fachada à noite, o quadro de luz, o painel do ar-condicionado. A foto não substitui o texto, ela ancora: o hóspede compara o que vê com o que está na frente dele e para de duvidar. O Airbnb recomenda antecipar a chegada com instruções claras, e uma imagem é o jeito mais barato de fazer isso.

Se você prefere partir de algo em vez de uma página em branco, em quais seções do manual os hóspedes realmente abrem tem a estrutura completa em tabela, pronta para copiar e preencher.

Como saber se o seu guia funciona

O sinal não é elogio na avaliação. É o silêncio: se na semana passada você respondeu três vezes a senha do wi-fi e nesta semana nenhuma, o guia está fazendo o trabalho dele. É o único indicador que importa e não precisa de ferramenta nenhuma para ser medido.

E quando chegar uma pergunta nova, não responda só no chat: responda e acrescente ao guia. Um guia vivo se escreve com as mensagens que você recebe, não de uma vez só no dia em que publica o anúncio. Para o momento mais delicado, a chegada, automatizar o check-in é o passo seguinte.

Fontes

    Como escrever um guia que o hóspede realmente lê